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Do Alerta de 2025 à Ruptura Anunciada: A Engenharia do Golpe Político de Cid e Ciro contra a Esquerda no Ceará

Cid Gomes e seu irmão Ciro Gomes

Do alerta de 2025 ao cenário de 2026

Quando escrevi, em março de 2025, que o senador Cid Gomes se movia para “passar a perna” no governador Elmano de Freitas, eu não estava apenas relatando uma intriga de bastidores, mas apontando a lógica estrutural de uma aliança marcada pela conciliação permanente com setores oligárquicos. Naquele artigo, publicado no Blog do Edison Silva, já denunciava que o mesmo Camilo Santana, eleito pelo PT, assistia em silêncio ao enfraquecimento do partido no Ceará, escudado numa postura de “bom moço” que, na prática, normalizava o avanço de aliados sobre o espaço político da esquerda.


Por isso, para mim, o rompimento de Cid com o PT não é um raio em céu azul, mas o desfecho lógico de um ciclo em que parte da direção petista no Ceará terceirizou o conflito político a figuras que nunca romperam com a lógica tradicional do mandonismo local. Vejo a tensão que explodiu em torno da presidência da Assembleia Legislativa, quando Cid se sentiu alijado da decisão que levou Fernando Santana ao comando da Casa, como a prova viva da fragilidade de um acordo em que o peso real do PT foi sistematicamente subestimado em nome da “governabilidade”.


O fio rompido entre Cid, Elmano e Camilo

A saída de Cid da base de Elmano, consumada quando o senador se afastou da articulação governista após o episódio da Assembleia, abriu, a meus olhos, uma crise que imediatamente colocou em xeque a coesão da aliança liderada pelo PT no Ceará. Ao optar por uma condução fechada e pouco compartilhada do processo que resultou na escolha de Fernando Santana, o governo acabou por expor um desequilíbrio interno: o PSB de Cid, presidido no Estado por Eudoro Santana, pai de Camilo, sentiu-se tratado como coadjuvante, mesmo sendo parte central do arranjo iniciado ainda no primeiro governo Cid.

Durante anos, assisti a Camilo e Cid encenarem perante a opinião pública uma relação de “irmandade”, com o então governador petista chegando a afirmar, em 2022, que ninguém separaria sua amizade e gratidão ao ex-governador, reforçando o compromisso de apoiá‑lo ao Senado em 2026. Esse pacto pessoal foi utilizado como cimento político para manter unido um bloco que ia da esquerda petista a setores conservadores, mas hoje enxergo esse arranjo tensionado por um cenário nacional em que o PT precisa se reposicionar e por uma disputa estadual na qual Ciro Gomes emerge como principal polo oposicionista ao projeto de reeleição de Elmano.


Quando, em janeiro de 2026, Cid mandou recados públicos a Camilo ao chamá‑lo de “sombra” de Elmano e sugerir que, caso deixe o MEC, passaria a ser um “fantasma” sobre o governo, li aquilo como algo muito além de simples ironias. Ali, Cid sinalizava um incômodo profundo com a centralidade de Camilo no projeto petista e lançava uma ameaça velada de ruptura política entre ambos, transformando uma divergência de bastidor em disputa aberta de rumo.


A deriva da família Ferreira Gomes

Nesse mesmo tempo, vejo Ciro Gomes reorganizar seu lugar no tabuleiro ao migrar para o PSDB e se colocar como principal opositor ao PT nas eleições de 2026, costurando uma chapa unificada da direita e da centro‑direita com figuras como Capitão Wagner e Roberto Cláudio. Essa articulação, que flerta com PL, União Brasil e setores do bolsonarismo, consolida uma curva para a direita que desmonta de vez a antiga narrativa de Ciro como alternativa progressista nacional, inscrevendo-o francamente no campo conservador nordestino.


Dentro desse contexto, não consigo enxergar como mera especulação a possibilidade de Cid romper não apenas com Elmano, mas também com Camilo, e se reposicionar em outra sigla como o Podemos para apoiar a aventura eleitoral do irmão. Se Ciro busca, no plano estadual, polarizar com o PT apoiado por Lula, parece evidente que parte da família Ferreira Gomes tentará arrastar consigo o que restar de capital político, prefeitos e deputados que ainda orbitam Cid, mesmo que isso signifique romper pontes com o campo progressista que lhes deu sustentação por quase duas décadas.


Minha leitura é que a família Ferreira Gomes sempre operou como um projeto de poder próprio, que em determinados momentos se ancorou na esquerda e em outros flertou com a direita, conforme o vento da conjuntura e as oportunidades institucionais. O movimento atual, que empurra Ciro para o bloco oposicionista de direita e Cid para uma possível recomposição nesse mesmo campo, apenas explicita que a aliança com o petismo nunca foi orgânica, mas tática e, portanto, descartável quando deixa de servir aos interesses do grupo familiar.


Onde deve estar a esquerda cearense

Como militante de esquerda, considero um erro estratégico grave insistir na ilusão de que é possível reconstruir “a unidade” em torno de Cid enquanto o irmão se torna o principal instrumento da direita contra Lula e Elmano. O campo popular, a meu ver, precisa escolher: ou aposta na reconstrução de um projeto enraizado na militância, nos movimentos sociais e numa base petista fortalecida, ou continuará refém das chantagens de um clã que alterna apoio e sabotagem conforme a conveniência.


Vejo com preocupação a postura condescendente de parte da direção do PT, que muitas vezes preferiu preservar alianças com velhos caciques a enfrentar o conflito necessário, e isso já mostrou seus limites quando permitiu que o processo de definição da presidência da Assembleia disparasse a crise com Cid. Ao naturalizar o desequilíbrio interno e aceitar que decisões cruciais fossem tomadas em mesas restritas, o partido ajudou a construir a armadilha em que hoje se encontra: acuado entre a exigência de manter a base “unida” a qualquer custo e a necessidade de confrontar um aliado que se move abertamente em direção ao campo adversário.


Se Cid, rompendo com Elmano e se distanciando de Camilo, buscar abrigo em um partido como o Podemos para compor uma chapa em apoio a Ciro, entendo que isso não representará apenas uma mudança de sigla, mas a certificação formal de que parte da velha aliança migrou de vez para o lado que quer derrotar o projeto de esquerda no Ceará. A partir desse ponto, qualquer tentativa de reatar laços sob o pretexto de “frente ampla” deixa, na minha avaliação, de ser gesto de generosidade e passa a ser sinal de capitulação programática.


Mais do que reagir a cada movimento de Cid ou Ciro, acredito que a esquerda cearense precisa aproveitar este momento de reacomodação para fazer o que evitou por anos: disputar hegemonia na sociedade a partir de um projeto próprio, que não dependa de fiadores conservadores nem de dinastias regionais. Isso implica fortalecer o protagonismo de Elmano, tensionar os limites da conciliação que marcaram os governos anteriores e exigir de Camilo uma definição clara: ou ele está com o campo popular, enfrentando inclusive antigos aliados quando necessário, ou continuará preso à lógica de administrar sombras e fantasmas em vez de liderar um projeto de transformação real.



 
 
 

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