De tudo, ao meu amor, as Big Techs serão atentas
- Sara Goes

- há 10 horas
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"O algoritmo não precisa de uma confissão para saber que algo ruiu porque ele lê a geometria da ausência"
1. Um acontecimento pequeno demais
Há um tipo de queda que prescinde de grandes eventos. Ela não precisa da validação de um colapso observável ou de uma tragédia com densidade narrativa. O que a desencadeia é o banal: um gesto ínfimo, um desaparecimento previsto, uma dessas covardias discretas que o cotidiano absorve sem alarde. A desproporção aqui é o que dificulta a síntese, pois o rastro deixado por esse evento é vasto demais para a pequenez da causa.
Foi o que aconteceu comigo. O episódio que precipitou minha melancolia não tinha o peso de um escândalo. Foi apenas a constatação de que alguém capaz de articular, com fluidez, conceitos de soberania informacional e captura algorítmica, era incapaz de sustentar o mínimo de responsabilidade quando o vínculo deixou de ser uma conveniência estética.
Tentei isolar o fato, mas a profundidade do impacto denunciava um acúmulo. Byung-Chul Han fala de um peso que não vem de uma ordem externa, mas de uma autoexigência que transforma a liberdade em uma forma de exploração voluntária. Há quase 10 anos minha vida opera sob essa compressão: o jornalismo em meio à asfixia financeira, a exposição, as maternidades e as tensões políticas do país.
Nesse cenário o sofrimento é apresentado como um problema interno a ser resolvido com terapia ou reprogramação cognitiva, ignorando que a forma como sentimos está ligada às condições sociais. O neoliberalismo, como racionalidade cultural, difunde a ideia de que cada indivíduo é o gestor integral de sua própria vida. Quando essa lógica invade o afeto, a dor de cotovelo é percebida como uma falha de administração emocional. A pergunta deixa de ser sobre o que aconteceu entre duas pessoas e passa a ser sobre por que você não foi resiliente ou interessante o suficiente. Esse deslocamento retira o contexto coletivo da dor e isola o sujeito em sua tentativa de consertar a si mesmo para retornar rapidamente ao funcionamento produtivo.
A "violência da positividade" se manifesta nessa obrigação de ser funcional e comunicativa, mesmo quando o terreno interno está em ruínas. Criamos a habilidade de seguir operando enquanto o não processado é empilhado em camadas geológicas. O colapso, portanto, não é uma quebra brusca, mas o momento em que a estrutura cede por não conseguir mais sustentar o peso da funcionalidade. É o cansaço do sujeito isolado que, ao esgotar a si mesmo, perde a capacidade de habitar o mundo de outra forma que não seja pela produção. A queda pelo acontecimento "pequeno demais" é, na verdade, o corpo recusando a última gota de desempenho exigida pela etiqueta social.
O que torna essa experiência mais complexa hoje é que o desmoronamento não ocorre em um vácuo privado. Vivemos um tempo em que a subjetividade foi sequestrada por uma lógica extrativista. Shoshana Zuboff descreve como o capitalismo de vigilância transforma a experiência humana em matéria-prima para a predição de comportamentos, criando um mercado de futuros que se alimenta da nossa intimidade mais desprotegida.
Nesse cenário, a dor deixa de ser apenas um estado psicológico para se tornar um sinal de mercado. O algoritmo não precisa de uma confissão para saber que algo ruiu porque ele lê a geometria da ausência. A interrupção súbita de citações que antes serviam de ponte, o fim de conversas que mantinham uma cadência fixa e o silêncio nos metadados de geolocalização são processados como uma mudança de estado rentável. Se a nuvem deixa de receber imagens em comum ou se os registros de presença param de convergir, o sistema detecta a ruptura muito antes de qualquer luto ser declarado.
Essa ausência abrupta, vinda de quem operava afeto enquanto durava a conveniência, torna-se um dado valioso para a máquina. A vulnerabilidade de quem atravessa esse deserto transforma o indivíduo em um alvo mais poroso a estímulos externos. A fragilidade é convertida em superavit comportamental. O sistema reorganiza o que exibe e antecipa as carências de quem acaba de perder um interlocutor que, embora munido de adjetivos precisos e uma estética da bondade, escolheu o silêncio como fuga. A dor, assim, é despojada de sua dignidade de processo íntimo para ser integrada a um fluxo de otimização de consumo, onde o algoritmo espera, pacientemente, para oferecer o próximo paliativo digital.
2. Relações humanas sob lógica de descarte
Ao mesmo tempo em que as emoções se tornaram dados, as relações sofreram uma transformação cultural profunda através do capitalismo emocional. Existe uma diferença crucial entre este fenômeno e a economia da atenção. Enquanto a atenção foca na captura do nosso tempo para gerar lucro publicitário, o capitalismo emocional descreve a invasão da gramática de mercado no campo afetivo. Não se trata apenas de quanto tempo passamos na tela, mas de como passamos a avaliar o outro como um ativo. O afeto é submetido a métricas de eficiência, custo-benefício e retorno sobre investimento.
A popularização de plataformas de encontro consolidou a desregulação desse mercado. O encontro ocorre em catálogos onde a promessa implícita é a de que sempre existe uma versão melhorada do outro disponível no próximo clique. Essa abundância aparente altera a percepção do compromisso. Quando a substituição parece indolor e imediata, a disposição para atravessar conflitos reais desaparece. O vínculo deve produzir satisfação instantânea. Diante de qualquer fricção que exija a profundidade que o interlocutor não deseja oferecer, o desaparecimento torna-se uma resposta aceitável.
A publicidade dessas plataformas opera em simbiose com esse vácuo afetivo. Quando o algoritmo fareja a ruptura, lendo o silêncio nas notificações e o fim da convergência dos metadados, o ambiente digital reage. É nesse momento que surgem notificações invasivas com promessas de novos começos, embaladas por uma estética de liberdade e autonomia. O sistema não quer que você processe a ausência. Ele quer que você a substitua. O marketing do novo ciclo é disparado exatamente quando a vulnerabilidade é maior. O algoritmo identifica a queda no volume de tráfego entre dois perfis e interpreta esse vácuo como uma oportunidade de reativação de usuário.
A dor é convertida em um gatilho de engajamento. O sistema oferece sugestões de perfis semelhantes ao que se ausentou ou produtos que mimetizam o preenchimento daquele espaço vazio. A lógica de descarte é o motor que mantém a máquina em rotação. Ela garante que o sujeito nunca permaneça tempo demais no luto, pois o silêncio do luto é improdutivo para a plataforma. O marketing da substituição vende a ideia de que a cura para uma covardia discreta é uma nova escolha no catálogo, transformando o trauma em um novo ciclo de exploração de dados.
3. A pausa que o corpo impõe
A dor de cotovelo não foi inventada no Vale do Silício. A queda emocional, a minha e a sua, não é um defeito de fabricação do sujeito, mas o sintoma de um esgotamento metabólico imposto por uma organização social que trata a vida como recurso exaurível. O que precipita o colapso costuma ser um evento banal, uma desproporção entre o gatilho e a reação que revela o quanto a estrutura psíquica já estava operando sob uma compressão insustentável.
Talvez tenhamos sido moldados para terceirizar a regulação emocional para parceiros de confiança, economizando energia metabólica para a sobrevivência. Quando as relações são mediadas pela lógica do descarte e pela ambiguidade das relações, o cérebro perde esse amortecedor e entra em um estado de hipervigilância para prever sinais de rejeição. Nesta lógica, o desaparecimento súbito ou o descaso não são apenas mágoas; são falhas catastróficas do modelo preditivo cerebral que ativam as mesmas regiões da dor física. O organismo declara falência diante de um sistema de reforço intermitente que mantém o sujeito em alerta máximo enquanto consome suas reservas de energia. Não é você, querido, é meu hipotálamo.
Esse dreno biológico é, então, capturado por uma infraestrutura tecnológica que extrai valor da nossa vulnerabilidade através do capitalismo de vigilância. Estados de tristeza e solidão tornam o indivíduo mais receptivo a estímulos externos, permitindo que sistemas algorítmicos identifiquem mudanças no vocabulário ou na rotina para converter a dor em informação processável. No Brasil, esse cenário é agravado por uma industrialização da misoginia que instrumentaliza o ressentimento e a desinformação de gênero para gerar lucro e capital político. A desregulação dos afetos não é um acidente, mas um projeto que mimetiza a precarização do trabalho: vínculos fluidos, sem garantias e de fácil dissolução, onde o ônus da perda recai exclusivamente sobre o indivíduo.
A tentativa de tratar essas crises apenas como problemas de gestão psicológica é uma estratégia de privatização do estresse que mascara o conflito de classe subjacente. Ao deslocar a autoridade do fato para a autoridade da emoção visceral, o regime da EUpistemologia isola o sujeito em sua "verdade" particular, impedindo a construção de uma consciência coletiva sobre as causas do sofrimento. O neoliberalismo exige que sejamos empreendedores da própria subjetividade, transformando o colapso em uma falha de administração emocional e não em uma reação à exploração total do tempo e do afeto.
Reconhecer a pausa imposta pelo corpo é, portanto, um ato de resistência contra a captura da vida pela métrica do desempenho. Em um mundo que exige a transparência total para fins de extração de dados, preservar o silêncio é uma forma de proteger o território irredutível da existência humana. Nem toda dor precisa ser convertida em dado. Nem toda perda precisa ser transformada em conteúdo compartilhável, em relato de superação ou em aprendizado público para alimentar o engajamento alheio. O luto tem um tempo que o algoritmo desconhece e uma profundidade que a gramática de mercado não consegue mensurar. Existem dores que exigem um exame profundo e um mergulho nos escombros da subjetividade. Outras, porém, encontram o seu lugar de repouso na simplicidade de dois ou três álbuns de Limão com Mel ou Flávio José. A luta de classes hoje passa também pela disputa do orçamento energético do cérebro, recusando a lógica que transforma nossa capacidade de amar e sofrer em mercadoria ou dado estatístico.




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