O Preço da Ignorância: Quando a Falta de Formação Política Tenta Igualar o Crime Organizado à Luta de Lula
- Israel França
- há 1 minuto
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A política cearense tem nos imposto reflexões indigestas. O recente escândalo em Morada Nova, com a prisão de três vereadores na Operação Traditori, investigados por suspeita de terem suas campanhas financiadas por facções criminosas, é um daqueles momentos em que o estômago revira. Mas o que mais me causa asco, de forma visceral, não é apenas o crime em si. A narcopolítica é o grande câncer da nossa frágil democracia. O que me assombra é a reação de uma militância oca, fruto de um pragmatismo eleitoral cego que inchou o nosso partido de pessoas sem a menor base ideológica.
Estamos pagando, e muito caro, o preço da falta de formação política. As filiações em massa no Ceará trouxeram volume, é verdade. Trouxeram mandatos, prefeituras e cadeiras no legislativo. Mas transformaram o partido, em muitos rincões, em uma mera legenda de aluguel, um trampolim desprovido de memória, escrúpulos ou história. O resultado desse inchaço irresponsável bate na minha porta todos os dias.
Diante do meu posicionamento firme e público cobrando a expulsão imediata dos envolvidos por parte do Conselho de Ética, minha caixa de mensagens foi inundada. E para que não digam que estou exagerando, faço questão de expor aqui as pérolas da insanidade que tenho recebido, exatamente como me foram enviadas:
"Opa amigo deixa eu te fazer só uma pergunta, Se o próprio presidente foi preso e não foi expulso do partido pq?"
"A imprensa não deve ser erigida a órgão julgador... Todos sem condições financeiras para o embate eleitoral injusto..."
"Não existe presunção para inocência? O melhor a se fazer é chamar a comissão de ética e expulsa los né? Bem democrático."
"Quem é vc para falar de Hilmar? Quem é vc para falar de Caludio? Quem é vc para falar de Gleide Rabelo? Sou associado a esse partido como vc..."
"Vou iniciar com uma pergunta: o que se ganha ao propagar discursos de ódio e atingir outras pessoas?"
Vamos dissecá-las, porque a burrice e a má-fé precisam ser combatidas com a luz da realidade.
Ler um indivíduo que se diz "associado ao partido" ter o cinismo de comparar a prisão preventiva de vereadores acusados de ligação orgânica com o narcotráfico e lavagem de dinheiro com a prisão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma aberração moral. É um insulto cuspido no rosto da história do Partido dos Trabalhadores.
Lula foi vítima do maior caso de lawfare da história da América Latina. Um processo viciado, conduzido por um juiz parcial, com um único e claro objetivo político: retirá-lo da eleição de 2018. Não havia provas, não havia materialidade, havia um conluio. Lula não foi preso por enriquecimento ilícito ou por financiar campanha com o dinheiro sujo do crime organizado que aterroriza nossas periferias; ele foi preso por defender a soberania nacional e a distribuição de renda. A história e o STF o inocentaram.
Em Morada Nova, o que a Polícia Federal investiga é a antítese do que defendemos. É a captura do Estado pelas facções. Chamar a exigência de rigor ético e expulsão sumária de "discurso de ódio" é a tática dos covardes. Discurso de ódio é rasgar a constituição. Discurso de ódio é entregar o mandato popular, construído com o suor de quem trabalha, nas mãos do crime organizado.
A presunção de inocência é um princípio penal incontestável, e a Justiça fará o seu trabalho. Mas a régua moral de um partido de esquerda, que nasceu da luta sindical e dos movimentos sociais, não pode ser a mesma do Código Penal. Se há indícios robustos, a ponto de fundamentarem prisões pela Polícia Federal, de envolvimento com facções, não há espaço para "passar pano". A Comissão de Ética não é um tribunal de justiça, é a guardiã dos nossos valores. E os nossos valores não toleram a convivência com a máfia.
A falácia de que esses vereadores são vítimas de um "embate eleitoral injusto" por "falta de condições financeiras" é a justificativa mais torpe que já ouvi para o flerte com o financiamento criminoso. Milhares de líderes comunitários, sem um centavo no bolso, fazem campanhas dignas, pautadas na sola da bota e na saliva.
Aos que me perguntam "quem sou eu" para falar deles: sou um militante, sou cidadão cearense e, acima de tudo, sou alguém que se recusa a ver a estrela do meu partido ser arrastada na lama por quem só se filiou a ela para buscar imunidade ou poder barato.
O caso de Morada Nova é um sintoma. A doença é a falta de educação política. Ou o partido acorda, retoma os processos de formação de base e limpa suas fileiras dos que usam a nossa bandeira para cobrir suas práticas nefastas, ou seremos engolidos pela própria mediocridade que ajudamos a abrigar.
Filiado e Militante do PT Brasil




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