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Natal, consumo e guerra de símbolos

Da pesquisa Datafolha aos Papais Noéis de shopping, a polarização invade consumo e rotina: até sandálias viram bandeira, enquanto crianças ainda encontram encanto no Natal



A pesquisa Datafolha (24) ouviu 2.002 pessoas em 113 municípios no começo do mês mostrou que 74% do eleitorado se reconhece em um desses dois campos, enquanto 18% permanece numa faixa intermediária e 6% não se identifica com nenhum dos lados. O estudo registra 40% de afinidade com o campo petista e 34% com o campo bolsonarista, indicando que a polarização segue estruturando a vida política do país, ainda que exista gente tentando ficar fora dessa disputa direta.


Essa disputa se infiltra nas campanhas publicitárias, no consumo e até na escolha de uma sandália. O caso das Havaianas mostrou isso com clareza: uma provocação calculada colocou direita e esquerda para reagir como personagens previsíveis de um roteiro já conhecido. Um lado anunciou boicote, gravou vídeos indignados e jogou sandálias no lixo. O outro tratou o ato de compra como gesto político. No fim, quem ganhou foi a marca, que transformou barulho em lucro enquanto o país seguia discutindo símbolos em vez de problemas concretos. Essa mesma lógica, às vezes, escapa do mundo do marketing e atravessa situações corriqueiras, onde ninguém espera encontrar guerra cultural. Foi assim que ela atravessou até o universo improvável dos Papais Noéis de shopping.


Cresci sem essa fantasia natalina e não falo isso com drama. Meus pais não eram cristãos, minha família comunista e a mágica do Natal era o 13º. Com meu filho quero fazer diferente. Quero dar fantasia, encanto e, se for preciso, mentir com dedicação sobre cada personagem do calendário. No primeiro Natal dele, no ano passado, vivi duas experiências bem distintas com Papais Noéis. A primeira foi num shopping de elite, com jingle bells em violoncelo, muita eficiência na fila, quase administrativa, sem sorrisos, com tempo contado para cara criança e com tratamento VIP para quem pagasse. A segunda experiência foi num shopping de periferia, com clima leve, conversa solta, criança ganhando pirulito e um Papai Noel sulista que parecia funcionário feliz de carteira assinada, com décimo terceiro no bolso e férias remuneradas.


Neste ano, portanto, eu já sabia em que shopping deveria ir com meu filho. Di aquela conferida no Instagram e descobri que aquele Papai Noel carismático acabou contratado... pelo shopping de elite. Tal qual um jogador de time pequeno que tem o passe comprado por um clube europeu. Não me surpreendi com a ascensão do craque do Natal. Meu ex-namorado chegou a fazer um bom pé de meia com esse tipo de trabalho, deixando a barba crescer de setembro a dezembro cuidando e hidratando, cuidando da cútis para manter a bochecha corada, relaxando na dieta pra deixar a barriga convincente. Uma preparação de miss que garantia convites para shoppings da região norte e até países vizinhos. Há, meus amigos, um poderoso mercado na carreira de Papais Noéis, com compra de passe, disputas, construção de reputação e até uma ideia de carreira.


Na semana passada fui conhecer o Papai Noel reserva e ele foi simpático, sorridente, pediu até para eu marcar no Instagram. Como meu filho se chama Luiz Inácio, algo me alertou e fui conferir o perfil. Ele seguia toda a família Bolsonaro. Fiz um print discreto, sem nomes, só o comentário curioso sobre a cena: "O Papai Noel do shopping pediu par eu marcá-lo no Instagram, mas algo me diz que ele nã iria gostar". O que eu não esperava é que aquele print atravessaria o submundo dos Papais Noéis, passando de grupo em grupo, trenó em trenó, e logo um Papai Noel do Sul me escreveu contando que já tinha vivido situação parecida, mas no sentido inverso. Por seguir Lula, foi exposto, hostilizado, perseguido e chegou a receber ameaças.


E foi assim que na semana do Natal descobri que meu nome tinha rodado entre os Papais Noéis do Brasil, com gente me criticando por levar meu filho ao shopping, como se, por ser petista, eu tivesse obrigação de viver outra rotina qualquer, talvez comprando Havaianas. Mas também houve quem me defendesse e discordasse dos ataques. Neste país até o trenó entrou na mesma lógica que o domina. Agora é véspera de Natal e, quando vejo um Papai Noel de shopping, fico pensando se ele foi um dos que me julgou ou um dos que me apoiou. Meu filho, por sua vez, não percebe nada disso. Corre, abraça o bom velhinho e sorri como se o mundo não estivesse dividido em campos rivais.


Entre cancelados e feridos, a pesquisa, a campanha publicitária e os Papais Noéis mostram a mesma coisa: a polarização atravessa tudo, das grandes disputas eleitorais às cenas mais simples do cotidiano. Mas, enquanto os adultos transformam cada gesto em identidade política, uma criança ainda consegue encontrar alegria onde a gente enxerga guerra. Talvez aí esteja a única parte realmente mágica dessa história.

 
 
 

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