Canonização S.A.: como a fé virou estratégia de marketing global
- Sara Goes

- 15 de set.
- 5 min de leitura
A canonização do "santo millennial" Carlo Acutis resulta de uma campanha veloz onde o lobby de uma família rica e o marketing estratégico se mostraram tão cruciais quanto os milagres, revelando a união entre dinheiro, poder e fé para um Vaticano em crise de relevância

No 7 de setembro deste ano, a avenida Paulista se transformou em cortejo fúnebre político. A massa que um dia ostentou vitalidade agora marchava sem brilho, carregando bandeiras estadunidenses e israelenses que tremulavam como panos de luto. O que deveria soar como celebração cívica virou velório de um projeto em declínio, revelando a agonia simbólica do bolsonarismo justamente na semana em que seu líder estava no banco dos réus. A um oceano de distância, o Vaticano embalava um novo ícone millennial, cuja santidade só avançou graças a um milagre reconhecido no país em que a democracia ainda era posta à prova.
Em uma Praça de São Pedro lotada, a Igreja Católica canonizava seu primeiro santo millennial, Carlo Acutis, um adolescente italiano que morreu em 2006, aos 15 anos. A cerimônia, transmitida para milhões, apresentava ao mundo um novo modelo de santidade para a era digital. Longe do barulho político de Brasília, Roma oferecia uma narrativa de pureza, fé e modernidade. Contudo, por trás da imagem radiante do "padroeiro da internet", emerge uma complexa trama de poder econômico, lobby familiar e uma calculada estratégia de marketing para rejuvenescer uma instituição em crise.
A história de Carlo Acutis é, em sua superfície, o material do qual a hagiografia moderna é feita. Nascido em Londres em 1991, mas criado em Milão, Carlo era filho de Andrea Acutis e Antonia Salzano. Ele não pertencia a uma família comum. Seu pai, Andrea, é um executivo de alto escalão no mercado financeiro, atualmente presidente do conselho de administração da Vittoria Assicurazioni, uma gigante seguradora italiana. Sua mãe, Antonia, vem de uma família com tradição no ramo editorial. O próprio Carlo era a personificação de um ideal europeu, alto, de olhos azuis, bonito, carismático e de uma inteligência notável.
Essa combinação de atributos o transformou na "marca" perfeita. Sua imagem é reforçada por frases de efeito como "Todos nascemos originais, mas muitos morrem fotocópias", slogans de grande apelo para redes sociais, mas que, segundo críticos, soam mais como autoajuda do que como reflexão teológica profunda. Ele foi ungido como "padroeiro da internet" com notável ironia, já que nunca teve um único perfil nas redes sociais. Seu "apostolado digital" consistiu em criar um site, uma atividade de uma era pré-Web 2.0.
Dentro do perfil idealizado para Carlo Acutis há algo de raso, ele não é santo pelo martírio nem pela teologia densa, mas pela imagem. Ele é vendido como um ídolo, apelando diretamente para uma geração marcada pela vaidade e pelo narcisismo, que busca destaque, visibilidade e identidade. Esse apelo simbólico é reforçado pela profecia relatada por sua mãe, Antonia Salzano, de que São Francisco lhe apareceu em sonho dizendo: “Seu filho ocupa um lugar muito alto no céu, e depois dele haverá uma geração de santos”. Essa promessa de santidade em série serve menos para inspirar devoção e mais para oferecer à juventude uma santidade-espetáculo, onde o objetivo não é temer o inferno, mas conquistar seguidores.
Carlo Acutis encarna a figura do santo privilegiado. Viveu cercado de conforto em Milão, filho de uma família rica e protegido das privações que marcaram tantos outros santos. Sua santidade não nasce de renúncia, pobreza ou martírio, mas da construção de uma imagem vendida como inspiração juvenil. Nesse sentido, ele dialoga com a geração Z não pelo conteúdo espiritual, mas pelo formato de ídolo: alguém que oferece como recompensa não o paraíso ou a vida eterna, mas a visibilidade, a fama e o reconhecimento em vida. A profecia atribuída a ele, segundo a mãe, de que depois dele viria uma geração de santos, funciona como promessa de santidade em série, ajustada ao desejo contemporâneo de destaque, de aparecer, de ser seguido. O contraste é ainda mais duro quando se pensa nas mulheres canonizadas, quase sempre obrigadas a provar pureza diante da violência, a resistir até a morte intocadas para alcançar reconhecimento. Enquanto elas foram exaltadas pela dor, Carlo foi elevado pelo marketing, pela estética e pelo privilégio de classe.
O que diferencia a causa de Acutis é a velocidade sem precedentes de seu processo, morto em 2006, beatificado em 2020 e santo em 2025. A família Acutis, com seus vastos recursos, desempenhou um papel central. Antonia Salzano viaja o mundo em palestras, mantendo a história do filho viva. Esse esforço chega ao ponto de enquadrar eventos pessoais como intervenções divinas. Aos 44 anos, quatro anos após a morte de Carlo, Antonia deu à luz gêmeos, um evento amplamente divulgado como o primeiro milagre operado por seu filho. O que a narrativa devocional frequentemente omite é que a gravidez foi resultado de tratamentos de fertilidade nos quais a família investiu milhares de euros, um detalhe que desloca a história do campo puramente místico para o da possibilidade médica acessível aos ricos.
A campanha global de marketing, impulsionada pela "Fondazione Carlo Acutis", inclui a exibição de relíquias e de uma imagem de seu corpo em uma tumba de vidro, que muitos devotos acreditam estar "incorrupto". Na realidade, trata-se de uma reconstrução hiper-realista com um rosto de silicone. O milagre oficial que destravou sua beatificação, a cura de um menino brasileiro em Campo Grande (MS), também foi o resultado de uma campanha bem-sucedida, com a família investindo na construção de laços com o clero local.
Essa operação de alta performance contrasta brutalmente com a saga de figuras de fé do Sul Global, como a do Padre Cícero. Canonizado pela devoção popular, ele foi em vida punido pela Igreja e morreu em 1934 sem sua bênção. Seu "lobby" não foi feito por executivos, mas por milhões de romeiros pobres do Nordeste. Somente em 2015 ele foi reconciliado, e seu processo de beatificação, iniciado em 2022, ainda tramita lentamente. O caminho de Carlo Acutis foi uma via expressa pavimentada com recursos e alinhamento estratégico, típico do poder do Norte Global. O de Padre Cícero foi uma longa peregrinação de fé popular vinda do Sul, que precisou de mais de um século para que a instituição o reconhecesse.
A pressa do Vaticano em fabricar um santo e o desespero de juízes como Fux em contrariar a democracia revelam a mesma crise, a de autoridades que tentam manter poder e influência enquanto o século XXI se decide entre manipulação e esperança. Controvérsias acompanham o novo santo. Alguns milagres eucarísticos por ele catalogados carregam acusações de antissemitismo. Ainda assim, a canonização avançou, consolidando Acutis como resposta estratégica à perda de fiéis jovens.
A canonização relâmpago de Carlo Acutis mostra que até a santidade pode ser fabricada, lembrando que, na geopolítica da fé e da política, nada é apenas milagre, tudo é cálculo.
A canonização relâmpago de Carlo Acutis, no mesmo dia em que o Brasil acertava contas com seu passado golpista, encapsula as contradições do nosso tempo. De um lado, a dura e desgastante luta pela democracia, travada até contra ministros que flertam com a nulidade da história. Do outro, a fabricação de um ícone religioso. A história do “santo millennial” mostra que até a santidade pode ser produzida, lembrando que, na geopolítica da fé e da política, nada é apenas milagre, tudo é cálculo.



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